Memories

"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."

Published by 「ϻȝƚɋɣαɦȡ 」 under on 00:20:00

Em todas as noites, quando ia passear ao parque, lá estava ela sentada debaixo do enorme carvalho. Pouca importância havia se as nuvens parecessem querer derramar lágrimas, ou se tempestades se quisessem aproximar – ela estava sempre lá. Em meus pensamentos e admiração, um singular mistério fazia-me inquirir a mim mesmo sobre o porquê disto. Pude perceber que sempre observava as pessoas, ou então escutava os grilos a cantar ou, ainda, o sussurrar das folhas quando o vento sopra. Gostava, também, de deitar-se de costas na macia grama e olhar para as estrelas. Ficava a assim admirá-las por muitos minutos. Mas isto é algo que vim a descobrir somente mais tarde, depois de conhecermo-nos.


Sentia-me encantado e fascinado. Sentia que ela podia sentir. Sabeis? – é algo complexo de se ter a explicar. Um sentimento enobrecido pela pureza da alma. Sentir verdadeiramente a íntima essência de todas as coisas. Muitas vezes ela me fazia perceber o quão bela pode uma existência ser, se a ela for dado o cabível e sensato destino. Sentava-me ao seu lado enquanto ela admirava, por exemplo, as estrelas: podia perceber em seus olhos um brilho diferente de todos os que eu já havia visto nos olhos de outras pessoas. Ela sentia a verdadeira natureza das estrelas. Podia - como eu muitas vezes quis junto dela partilhar deste sentimento – quase tocá-las; mais que isto, sentia-se parte delas.


Lembro-me bem, com incrível profundidade de particularidades, da primeira vez em que fui ter-lhe. Meu coração palpitava em êxtase bucólico, minhas mãos tremiam, meus pensamentos desenrolavam-se a emaranharem-se ainda mais; meus pés moviam meu corpo quase que automaticamente, pois, sinto vergonha em dizê-lo, minha coragem era pouca. Em verdade, se passava é que eu já a sentia amar. Compreendei-me, não era uma simples paixão, nem um amor passageiro – daquele existente entre amigos que, após a universidade, separam-se para jamais se tornarem a ver. Não. Meu sentimento era diferente, quase palpável. Latente em meu peito, quase se externava para fora de mim e tomava forma própria. Se o fizesse, gosto de imaginar, moldar-se-ia à forma de luz. Pois é assim que me sentia próximo a ela. Iluminado. Possuído por uma alegria, uma felicidade que não podem ser compreendidas em qualquer palavra de todos os idiomas. Podia até extrair de mim o melhor, e o queria fazer apenas para e por ela. Eu a amava.

Era uma noite em que as nuvens estavam coloridas pela claridade da Lua cheia; casais passeavam com as mãos juntas pelo parque; pequenos animais notívagos aproximavam-se do velho carvalho; havia uma branda brisa, com momentos de agitação. Ela, minha adorada, adornava-se com um vestido negro, suas longas madeixas igualmente negras davam-lhe um ar de meiguice e, ao mesmo tempo, mistério e sensualismo. Com a coragem – ou devo dizer a falta dela? – me aproximei e timidamente disse-lhe:


- Olá... Posso sentar-me ao teu lado?


Ela sorriu. Se houvesse algum resquício de dúvida sobre meu sentimento por ela, teria sido inteiramente sanado neste momento.


- Sim, claro que podes.


Então eu me sentei. Sentia exalar de si um perfume doce e delicado – era muito agradável. Ela era ainda mais bela quando observada de mais perto. Como percebesse que nada eu dissesse, disse-me:


- É uma bela noite, não? As estrelas nos sorriem...


Seus olhos possuíam um brilho natural que me encantava como encanta aos homens dos mares o canto das sereias.


- Sim, certamente... Deveras bela.


Sentia-me bobo próximo a ela.


- Que lhe traz cá, bom moço? – indagou-me, delicada e gentilmente.


Sentia minha garganta seca, minhas mãos tremeluzentes – efeito único do nervosismo. Contudo, ao mesmo tempo em que me sentia nervoso, o simples fato de sua presença acalmava-me de uma maneira tal que, se não fosse dizer-lhe as palavras seguintes, sentir-me-ia suave mesmo no dia do apocalíptico juízo final.


- Bem, é que... Hum... No fim, não é algo importante. Deixa estar.


Desfaleci. Sentia meus sonhos distantes, a baterem suas asas para cada vez mais longe... Minha cobardia me havia vencido.


- Não precisas temer tuas palavras... Embora possa parecer, não sou má. Liberta a tua alma sem receios.


Pouco ela me compreendia. Mas, passado algum tempo depois deste dia, percebi que ela fazia-o como ninguém. Disse-lhe, por fim, meus medos exorcizados por sua meiga voz:


- Bem, a verdade é que... Oh, eu a amo. Sim, não me conheces, sei que sou precipitado, mas a verdade, a única e pura verdade é que eu a amo. Meu coração tem-me incitado há dias para que eu o viesse abrir para a tua alma. Eu simplesmente sentia que devia abrir-me contigo – ainda que te espantes, e não possas compreender – eu compreenderei. Sequer o teu nome eu sei, como poderias compreender-me tu? Sinto-me um tolo...


- Oh, não te sintas. Gosto de sonhar, sabes? Sonho até mesmo acordada, o tempo todo. Minha vida, a minha verdadeira vida, é um sonho. Não caibo à realidade. E, num destes sonhos, lhe conheci. Sim, eu o conheço! Tu aparecias-me exatamente como fizeste agora, e declaravas o teu amor para mim. Eu sentia o mesmo que ti, e uma profunda paz de espírito possuía-nos... Então, nos abraçávamos profundamente, por longos minutos. Tu dizias amar-me, eu dizia amar-te. E é por isto que todas as noites espero-te cá, era noite em meu sonho.


Um espanto indescritível e doce possuíra-me neste momento. Pairava um silêncio que chegava a pesar... Foi quando, com olhos marejados de cristalinas lágrimas, a brilharem de vistosa alegria, ela disse-me:


- Eu te amo, Will.


Eu correspondi-lhe o amor, então nos abraçamos. O vento acariciava-nos a face com sua gentil brisa, a Lua brilhava mais intensamente; porém, tudo ao redor, neste momento, deixara de existir. Éramos ela e eu a pairar num suspenso chamado Eternidade. Eu a amei, amo e amarei mesmo para além do fim das eras. Seu nome, uma bênção... Uma querida princesa, habitante do íntimo mais belo de todos. Moramos na mais alta torre, no mais profundo dos oceanos.


4 ϻĭņđʼƨ:

Tay disse... @ 19 de julho de 2008 às 10:21

Você e a May tem talento x)
Belo texto ^^

Lia disse... @ 20 de julho de 2008 às 18:04

Chorei... Sim, chorei lágrimas doces... pq nenhum texto me tocou profundamente, e nenhuma palavra me marcou como marcam as suas, como fazem seus textos!Aqui, minha alma... Aqui, meu amor... Maravilhoso... Simplesmente divino!

Fernanda Vivacqua disse... @ 23 de julho de 2008 às 18:09

Sem tempo para blog e internet,vi os três recados agora.
:D
Eu também já o vi no orkut da May também, temos um belo elo.Ela é uma pessoa e tanto.Qualquer dia me deixe um recado então,bom finzinho da semana pra você.
Beijos,Fê.

Vincent's disse... @ 24 de julho de 2008 às 19:33

Impressionante. Quem é que lê, afinal? Vc ou a Lia? Tem uma excelente visão, excelente!

Admirado oO'

Belíssimo texto.

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