Memories

"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."

Published by 「ϻȝƚɋɣαɦȡ 」 under on 00:09:00



“Minha alma possui o imaterial peso da solidão no meio de outros.”
Clarice Lispector.




Quando desperto, procuro num só lugar a necessária força para abrir os olhos: na brandura do teu olhar.
Se estiver triste, um único gesto pode transportar-me para os infinitos reinos da serenidade: os teus lábios a esboçarem aquele sorriso que me desmancha todo...
Se me sentir contente, quero compartilhar toda a minha alegria contigo, mesmo sabendo que tu és a razão de eu estar assim, e tu possivelmente o sabes.

Observando pela janela, vejo as árvores a dançarem lentamente lânguida valsa. O vento passa devagar – e, ao passar, abraça a todas as criaturas; com ele de tão longe me chega a tua doce voz, um cântico celeste vindo do mais alto paraíso: em verdade, o paraíso é-me inexistente em sua forma pré-concebida pelo Cristianismo ou algumas outras crenças, mas, devo dizer, tu não podes habitar outro lugar senão um reino do mais puro amor, onde nenhuma criatura de má fé possa existir ou coexistir. Quando tu sorris, fitas-me com aquele olhar meigo, ou até mesmo quando simplesmente caminhas – belíssima harmonia de movimentos! -, o meu coração pára de bater, a minh’alma rende-se à tua. Medusa, Delilah! Seduzes-me de forma quase inacreditável, inconcebível ao entendimento de uma mente meramente humana. És tão adorável... Por que, contudo, tens de estar aí, do outro lado da realidade - onde os sonhos predominam? Como posso ultrapassar esta imaterial barreira, o limite destes dois extremos? Como poderei lhe tocar? Penso, às vezes, que não és mais que quimera, uma utopia criada por mim, um subterfúgio – ah, adorável... – criado por minha mente inconsciente... Porém, no instante mesmo em que o faço, a verdade revela-se tão clara e palpável, posso até sentir o teu cheiro... O aroma de flores exóticas ainda desconhecidas. E o teu charme, o charme dos teus lábios quando, em harmonia com os teus olhos, desenham o mais belo sorriso – sim, eu amo o teu sorriso – que já vi em todo o mundo, ah, esta qualidade que tanto me atrai e por qual já dediquei centenas e centenas de versos de amor?

“Enquanto a chuva molha meu rosto, ela esconde a minha lágrima que insiste em encontrar o chão”... Tanto amor, tanto querer e não te poder ter... Camões, eu agora sinto a dor dos teus versos!

.
.

“Hoje pensei tanto em nós dois
Que não podia deixar pra depois...
E eu vim aqui só pra dizer
Que eu sou louco por ti...”

.
.
.

Em uma tarde nublada, sentado debaixo da copa da árvore onde gosta de ficar a ler as poesias dos seus escritores mais queridos, árvore esta que fica ao lado de um enorme e profundo lago, ele, desta vez a apenas refletir com os olhos fitos no distante horizonte – belíssima paisagem de árvores e montanhas encobertas de neve resplandeciam ante sua visão -, percebeu, espantado, a imagem da moça dos seus mais doces delírios refletida nas águas do lago. Por detrás dela, via refletidas apenas as nuvens prontas a despejarem suas lágrimas na terra. Ela sorria-lhe... E ele, como sempre - sempre! - sentia-se todo extasiado por conta deste singelo sorriso... Os seus sentidos não lhe pertenciam quando ela estava presente. Ele gostava disto, fazia-o se sentir verdadeiramente vivo: os seus pulmões, seu coração, sua mente, sua alma era preenchida com a forma de vida mais pura e delicada que possa existir.
Começara a chover. O vento agitava ferozmente as árvores: desta vez, a dança era mais ferina. Os animais recolhiam-se para suas tocas, a claridade do dia era monótona, a oscilar entre o estado de luz e treva; e ele, ah, pobre poeta apaixonado! Não podia deixar de observá-la... Estava agora mais próximo da beira do lago. Lágrimas escorriam de seus olhos... “Por que, Deus, por que eu não posso tê-la ao meu lado? Por que sou fadado a sofrer e amar alguém que eu jamais poderei ter?” Sentia uma dor muito profunda perpassar por todo seu ser, principalmente no coração.

Do outro lado, num momento, ela estendeu para ele as suas mãos. Ele, a deixar para trás todos os vestígios da existência que um dia tivera na Terra, estendera as suas para as dela: segurou-as. Caíra no lago, abraçou-a e, agora com lágrimas de alegria e um sorriso igualmente alegre, afundava cada vez mais no ventre do escuro lago... Para todo o sempre.

7 ϻĭņđʼƨ:

May disse... @ 12 de fevereiro de 2009 às 23:29

Que lindíssimo texto, meu querido.. senti como se meu coração flutuasse embalado pelo doce ritmo das suas palavras. Trouxe-me uma paz que há algum tempo desapareceu de mim... Não deixe de postar seus maravilhosos textos. São um presente para qualquer alma sensível.

:)

(LL)³

Taimã disse... @ 17 de fevereiro de 2009 às 20:54

Quimera, utopia, subterfugio... esse texto tá mais a minha cara que a sua! IUEHIAUOHOIEUHAOIHEIOU
Mas tá lindíssimo! *----*
(vide coment no 'memórias' ;x)
Beijo!

I s r a e l disse... @ 18 de fevereiro de 2009 às 23:11

Will indiquei um selo 'olha que blog maneiro' para você, sei que talvez você nem publique, mas é como eu disse na postagem, são só os blogs que conheço e gosto.
Depois você olha lá...
Domingo leio o texto porque hoje estou na lina e tô indo embora já!
Abraços.

Unnamed disse... @ 29 de abril de 2009 às 15:48

"mas, devo dizer, tu não podes habitar outro lugar senão um reino do mais puro amor, onde nenhuma criatura de má fé possa existir ou coexistir."
Mais sentido não pode fazer.
Belíssimas palavras, belíssimo sentimento. Amor para com os outros nos amena a alma.
Abraços.

Solange Maia disse... @ 31 de janeiro de 2010 às 23:49

que l-i-n-d-o !!!

um texto sensível que me fez te ler mais e mais....

sensibilidade...
delicadeza...

amei.

beijo grande

Super V disse... @ 2 de fevereiro de 2010 às 20:33

oi querida! nossa, obrigada de coração por ter passado no meu blog e comentado! você não sabe o quanto significa pra mim! eu nunca ouvi falar de Suicide Girls, é uma banda? acho que nunca parei pra ver animes REALMENTE, se quiser me indicar umas boas, eu agradeço! hahaha adorei a frase da Clarice, ela é a minha escritora favorita de todos os tempos, acho que as coisas que ela fala são tão sinceras e eu fico encantada!
mais uma vez, obrigada por ter passado no meu blog, e ah, ta de post novo, se quiser, passa lá!
um beijão e volte sempre! xx

Corina de Oliveira disse... @ 4 de setembro de 2010 às 17:12

Adorei o teu blog :) é simplesmente fantástico!

Se quiseres passa pelo meu espaço:

http://o-meu-reino-da-noite.blogspot.com/

Diz o que pensas ;)

Enviar um comentário